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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

RELATO DO MEU PARTO – A COMPREENSÃO DA DOR DE PARTO - PARTE I.


RELATO DO MEU PARTO – PARTE I – A COMPREENSÃO DA DOR DE PARTO.

Este é o meu testemunho. Um testemunho cristão sobre a dor do parto.

Durante a gravidez do Samuel, meu primogênito, eu me sentia comunicativa e aberta para falar sobre a gravidez, e criei um blog onde relatei todos os pormenores que para mim eram importantes na época, pensamentos, sintomas , tudo. Cheguei a flertar com o parto normal, mas a medida que a barriga crescia, e todos me pressionavam sobre o tamanho do Sam, e eu com meu pânico de dor, me sentindo fraca e incapaz de passar pelo parto, optei por uma cesárea eletiva. Infelizmente a médica não fez esforço algum para me incentivar a pelo menos esperar as dores do parto, ou seja, a esperar o Sam avisar que estava pronto para nascer. E foi assim que meu primeiro filho nasceu no dia que a médica escolheu, de acordo com a agenda dela e com 38 semanas e 3 dias.
Na época, foi uma cesárea rápida e tranqüila, eu tenho uma ótima cicatrização e elasticidade da pele, então voltou rápido o meu corpo ao normal e a cicatriz hoje é praticamente invisível. Não tive dores na recuperação, como ouço relatos por aí. A única dor que senti mesmo foi na cirurgia  para pegar a veia no braço , já a anestesia na coluna não senti nada. E por um momento quase apaguei totalmente, pois minha pressão baixou.  No entanto, mesmo na época que fiz a cirurgia eu não havia pesquisado nada sobre a cesárea. Eu tinha medo da cirurgia, sabia que era uma cirurgia de grande porte com muitos riscos, mas o medo de sentir qualquer tipo de dor era maior do que de fazer esta cirurgia.
E como cada experiência de nossa vida, nos ensina algo, e cada filho vem como instrumento de transformação , nos ensinando e nos moldando a sermos melhores filhos para Deus, eu , então, me senti totalmente diferente nesta segunda gravidez. Estive muito mais introspectiva e menos sociável. Busquei muito mais a presença de Deus para aprender, e não só para agradecer como na primeira gravidez. Eu queria entender o que Deus queria me ensinar com este segundo filho, e coloquei-me diante de Deus como serva e aprendiz, aguardando o que Ele havia preparado para mim.
A gravidez começou, e eu enjoei muito e isto me desanimou a fazer o pré-natal. Eu não tinha médica ainda, e pelo plano marquei qualquer uma que pudesse me atender. Minha intenção era apenas pegar o papel para fazer ultrassom e exames e ver se estava tudo bem. Ao mesmo tempo orava para Deus prover um médico que me levasse para o parto que Ele queria que eu fizesse. Fui desde o início orando neste sentido. Em minha oração , desta vez, eu não pedia o tipo de parto mas pedia para Deus me conduzir nos mínimos detalhes.
Em minhas orações eu colocava o meu medo da dor do parto, mas repetia as palavras de Jesus ao final dizendo “seja feita a Tua vontade e não a minha”, e pedia misericórdia para que eu obedecesse com alegria esta vontade. Eu não sei se eu tinha só medo do parto, porque minha mente era tomada pelo medo da dor, era um pânico que me fazia contorcer as pernas e comprimir os joelhos sempre que ouvia algo sobre o tema ou via algum vídeo. E quando alguém falava sobre parto normal eu sentia uma angústia no coração, um horror, uma repulsa profunda. Eu via a dor do parto como uma maldição destinada para Eva. Eu não era merecedora deste sofrimento, era o que no fundo eu estava querendo dizer para Deus. Eu tinha medo pavoroso da dor de parto. Achava injusta e tentava desviar o pensamento com frases sarcásticas, fugindo pelo humor de um tema que me assombrava. Eu não só temia a dor, eu odiava a dor do parto.
E lá estava eu, grávida novamente, e começando me angustiar. Sem médico e sem saber o que Deus queria. E se eu morresse no parto? E se eu não agüentasse a dor? E se o bebê sofresse algum trauma físico ou mental no parto e ficasse com alguma seqüela para o resto da vida? E a avalanche dos “e se” começaram a cobrir meu coração de tristeza, como uma nuvem negra que encobre um dia ensolarado, estar grávida começou a me deprimir. E eu me isolei um pouquinho mais. Eu ainda estava enjoando e me sentindo ingrata, e me sentindo velha demais para engravidar, e me sentindo com pavor da dor do parto e da cesárea, me sentindo sem alegria, sem novidade e isto durou uma semana. Para mim, não havia novidade, os hormônios me jogaram na lama e o medo da dor do parto só crescia em mim.
Quando fizemos o exame para descobrir o sexo do bebê, foi algo tão inesperado, e eu fiquei tão feliz em saber que seria outro menino que foi uma carga de animo. E assim soubemos que o Lucas estava crescendo em mim.
Voltei a procurar médico, sem êxito, e voltei a orar pelo parto. Nesta época, minha unha do pé encravou. E foi tão forte e tanta dor, que a médica receitou antibiótico para o dedo infeccionado. Lembro que uma madrugada eu bati esta unha inflamada e o coração parecia bater na ponta do pé, chorei tanto e orei para Deus justificando que seria impossível eu sentir a dor do parto se estava ali já morrendo com uma dor na ponta do pé. Eu me senti tão ridícula por chorar de dor, mas o pé latejava. Só com o gelo que o esposo trouxe, que eu consegui voltar a dormir. Recebi ajuda e dicas de amigas via whatsapp, e orações por todas as demais pequenas dores que apareceram durante a gestação e que não convém falar aqui.
E em todo o tempo, o fantasma da dor do parto crescia em mim, e se alimentava do meu medo a ponto de me tirar a alegria de estar grávida, e eu lutava contra isto em oração. Cada vez que sentia tristeza orava, se não tinha forças mandava uma mensagem para uma amiga pedindo oração.
Já com sete meses encontrei um médico voltado ao parto humanizado, o Dr. Fernando Pupin, aqui de Florianópolis, ele fez o parto de uma amiga querida anos atrás, e eu resolvi ligar para tentar consulta com ele. Consegui para a semana seguinte e convenci meu esposo para irmos lá para ver como seria. E fomos nós três. Ele nos atendeu super bem, falamos sobre a gravidez e sobre o parto, e meu esposo comentou que preferia a cesárea e eu expliquei os motivos dele (infelizmente uma prima dele havia perdido o filho no parto por negligência e violência médica, e isto marcou toda a família, uma tragédia mesmo).
 O Dr. Fernando trouxe tranquilidade e paz para o pré natal. Pediu todos os exames , fiz , e eu sempre perguntando sobre bebês grandes e parto normal, e ele me tranqüilizava dizendo que os bebês grandes nascem de parto natural sim. Para mim, já foi surpreendente que em uma simples conversa ele convenceu meu esposo de que a via de parto nós teríamos possibilidade de escolher, mas que ele pedia paciência para pelo menos aguardarmos o início do trabalho de parto. Pois aí o bebê estaria avisando que está pronto para nascer. Meu esposo achou isto justo, e concordou. Para mim já era uma pequena confirmação de que pelo menos as dores eu iria sentir desta vez.
Naquele dia eu vim para casa pensando nisto. Eu vou sentir as dores de parto. Não importa se vai ser cesárea ou vaginal, eu vou sentir as dores das contrações. Como será isto? E aí eu comecei a pesquisar.
O caminho que eu fiz foi primeiro orar. Fui na bíblia procurar o que encontrava sobre dor. Primeiro meditei em Gênesis, quando Deus fala para Eva sobre a dor do parto logo após eles pecarem. E então eu vi, algo que não tinha visto antes, que a dor não foi criada naquele momento, Deus , na verdade, a aumentou grandemente em razão do pecado, ou seja, já havia dor. O projeto inicial de Deus já considerava a dor, a dor fisiológica já fazia parte . Em uma simples leitura do versículo isto fica claro, pode espiar em qualquer versão bíblica, sempre houve a dor do parto. E que dor era esta? Eu queria saber.
Uma das coisas que eu temia , em relação a dor, era o bebê ser muito grande. Afinal, eu sou alta e meu esposo também, o bebê dificilmente seria pequeno, Sam já foi um bebê grande. E ao falar com uma amiga sobre o parto dela, que foi lindo e domiciliar, ela me disse para parar de falar sobre o tamanho do meu filho e eu na mesma hora parei.
Depois, fui na Internet pesquisar sobre anatomia feminina, sobre a dor fisiológica, a razão dela existir. O que acontece no corpo da mulher durante o trabalho de parto, quais as fases do parto, e isto me fez meditar que sentir dor faz parte da condição humana. Achei muitos vídeos em inglês, bem explicativos que me ajudaram a perceber que a vida requer dor. Esta vida mergulhada em analgesia é coisa moderna. E viver sem sentir nada, é não viver, não vale a pena.  
Neste processo, já faltava menos de dois meses para meu parto, e eu estava convencida de que sentiria esta dor e que ela fazia parte da maternidade. Neste momento, um muro se quebrou dentro de mim. Uma nuvem negra se dissipou de meu coração. Eu iria sentir dor, eu compreendia a dor. Ela não era mais um monstro sem rosto e desconhecido que me atormentava.
Entretanto, havia outra dor. No mesmo versículo de gênesis mostra que aquela dor seria aumentada grandemente. Comecei a perceber que minha reação a dor do parto, com sarcasmo e negação, era, na verdade, uma rebeldia contra a justiça de Deus. Como eu poderia achar injusto sofrer por algo que Deus decidiu? Deus , que é justo , perfeito e soberano.  Aquele grande acréscimo de dor, era a justiça de Deus que se cumpria.
A partir daí, eu entendi que havia duas dores. Uma dor do corpo e outra da alma, que somadas, nos levavam ao limite entre a vida e a morte. E que toda dor no parto faria parte da vontade de Deus se cumprindo em mim. E que não havia experiência física que pudesse se comparar a parir. A dor do parto me ligaria a Deus através de sua justiça se cumprindo em meu corpo e em minha alma. Através da compreensão desta dor, o entendimento desta bendita dor transformadora, eu comecei então a desejar em meu coração o parto natural. Eu comecei a orar a Deus, dizendo que esta era uma oportunidade de eu viver esta experiência,e eu queria viver. A medida que se aproximava o dia do parto e eu tinha mais e mais contrações de Braxton, eu comecei a orar pensando que eu não poderia viver, passar por esta vida, sem viver esta experiência. E então, comecei a orar pelo parto natural, para Deus conduzir todos os detalhes. Até aquele momento, ainda não tínhamos certeza se conseguiríamos o financiamento para o parto, o esposo ainda queria cesárea, e talvez minha mãe não estaria aqui se o bebê passasse de 40 semanas.
Enfim, eram tantas preocupações, que eu resolvi não me preocupar. Eu resolvi apenas orar e aguardar. Resolvi também me afastar de todos e  tudo que me trouxesse ansiedade. Busquei versículos diariamente para meditar sobre confiança em Deus e para manter na mente o que me trazia esperança e fé.
Eu resolvi me preparar emocionalmente para me entregar totalmente aos cuidados de Deus. Deixei para que meu esposo se preocupasse com a parte financeira, apenas continuei orando para Deus dar sabedoria para ele e  falei que até o dia do parto não queria saber nada a respeito. E quando minha mãe falou que não sabia quantos dias ia ficar e que não sabia quando poderia vir para me ajudar, eu falei que o bebê iria nascer apesar de todas as coisas, se eu conseguisse pagar a clínica ou não, se ela viesse ou não, se eu me preocupasse ou não.  E falei com paz no coração, era o que eu estava sentindo.
Desta forma, eu resolvi que não iria me preocupar. Cortei contado com várias pessoas, e pedi que me enviassem áudios com versículos bíblicos ao invés de problemas (riso) , e recebi áudios lindos que me ajudaram mais ainda a meditar na palavra de Deus. Eu não tive vergonha de mergulhar neste momento, de me entregar mente e corpo para viver esta experiência com Deus. Pedi orações e informações diretamente em grupos cristãos, e fugi de toda literatura ou debates com ideologias feministas sobre o parto.
Para mim, estava muito claro que o parto era um momento de renunciar a mim mesma, um momento de dar a vida por amor ao meu irmão (que será também meu filho), de me entregar em sacrifício. Eu não estava empoderada, mas na minha fraqueza sabia que Deus poderia me fazer forte. Eu não me sentia confiante e certa de que daria tudo certo, eu sabia que o que fosse acontecer, isto seria o certo e vontade de Deus.
Meditei na passagem bíblica do quarto homem na fornalha, e pensei que se Deus quisesse que meu parto fosse rápido ele seria, mas se ele quisesse que eu sofresse por mais horas, assim seria também para sua Glória. Eu não queria criar expectativas de um parto perfeito e entreguei meu plano de parto para Deus preencher.  E quando falo isto, não estou dizendo que me mantive ignorante aos detalhes do parto, pelo contrário, procurei saber o que seria o mais humanizado possível e orei para Deus , que se possível meu parto fosse assim, mas sempre repetindo no final , que a vontade Dele fosse feita, e não a minha. Eu não queria me sentir no controle de nada, eu queria me esvaziar de mim mesma para que o poder dele fluísse em mim. Que diminuísse eu, e Ele me guiasse.
O que mais me preocupava era o momento em que dor seria  grandemente aumentada, e eu orava a Deus que tivesse misericórdia de mim, e me ajudasse, e que Jesus passasse comigo este momento, pois com Ele eu poderia conseguir, sozinha eu não iria de jeito nenhum. Eu sabia que estava me jogando nesta experiência assim como Pedro que se lançou para caminhar no mar, e eu sabia que em algum momento durante o parto eu iria olhar para a situação e começar a afundar. E por este momento, eu também orava. Eu orava pedindo a Deus misericórdia e força para passar pelo momento de fraqueza quando a dor fosse maior.
Eu estava totalmente submissa a vontade de Deus. E orava para que ninguém, nem médico e nem hospital e nem minha família , nem meu esposo e nem eu mesma atrapalhassem a plena vontade de Deus para este parto. Minha fé, naqueles dias antes do parto, posso dizer que foi como nunca foi em nenhum outro momento de minha vida. Deus derramou sobre mim uma paz e tranquilidade, e as pessoas falavam em ansiedade e eu as exortava em amor para falar com sabedoria e orar comigo , pois eu estava me preparando espiritualmente para viver algo grandioso demais para mim.

E com esta compreensão e aceitação da dor do parto, sem ansiedades, no dia 12 de dezembro as 8:00hrs da manhã eu acordei com um jato de leite saindo de meu peito direito, e assim começou meu trabalho de parto.... (parte 2 - O PARTO

6 comentários:

  1. Que lindo Gláucia! Quero ler o mais breve possível a segunda parte hein?!! Seu texto é edificante!

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    1. Oiii não sei se viu, agora está no blog já o relato do parto. abraços
      http://gravidezcomalegria.blogspot.com/2017/01/relato-do-meu-parto-vbac-parte-2.html

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  2. Hoje que consegui ler tudo prima. Nossa muito lindo tudo isso que vc passou. Grande aprendizado. . Vou lá pra segunda parte. 😘

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Oi, muito obrigada por seu comentário. Eu me emocionei com suas palavras. É realmente muito difícil compartilhar algo tão íntimo, de forma que seja o mais claro possível. Eu verdadeiramente espero que outras mamães sejam tocadas por este testemunho.

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